O DIFERENCIAL DE UMA BOA LOJA

Segundo dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), a seção de padaria participa com 3,3% no faturamento da loja de supermercado. Mas esse número pode ser multiplicado várias vezes, quando o supermercadista faz da seção uma “área VIP”, com mix variado, produtos especiais e atendimento diferenciado. “Na minha loja, a padaria representa 12% do faturamento”, assegura Marcos Aurélio Soares, diretor do Supermercado Dandão, comemorando um faturamento varias vezes superior à média nacional para a seção de sua loja com seis check outs, em Piumhi, no Centro-Oeste de Minas.

Em pesquisa realizada pelo Instituto VER, encomendada pela Amis, em outubro do ano passado, 19,6% dos entrevistados disseram que na hora de comprar pão, preferem a padaria do supermercado. E para que a padaria seja cada vez mais um grande atrativo, ao supermercadista não resta outro caminho a não ser investir na qualidade dos produtos e no treinamento da equipe. “Só para se ter uma idéia, a minha padaria é auto-serviço e, mesmo assim, mantenho sete atendentes na seção”, conta o diretor do Dandão. “A padaria tem duas grandes vantagens. Primeiro porque ela é rentável, depois, porque leva o cliente à loja, no mínimo, uma vez por dia. Muitas pessoas vão duas vezes, todos os dias”, argumenta. Na opinião de Marcos Aurélio, o diferencial da loja está no bom atendimento e no mix com maior valor agregado. Sua loja tem 750 metros quadrados, dos quais 50 metros são destinados à seção de padaria e 17, dos 50 funcionários da empresa estão na seção para prestar um atendimento diferenciado ao cliente. “A atendente auxilia na compra, se por acaso faltar um produto, assim que fica pronto a gente manda na casa do cliente”, relata. A entrega do produto é gratuita.
 


Marco Aurélio Soares, do Supermercado Dandão, de Piumhi (MG)

Mix variado
Marcos Aurélio Soares se intitula um viajante curioso. E isso faz muito bem ao seu negócio. O resultado é um mix com muita variedade de pães, confeitaria diversificada, doces e salgados. Produtos sempre com um valor superior aos convencionais e que caem no gosto do cliente. “Sou muito curioso e gosto de viajar. Nas viagens, sempre que encontro um pão diferente, trago para a loja e peço ao padeiro para tentar fazer algo parecido”, assinala. Mas, para ter um profissional capaz de produzir produtos à altura da produção das principais padarias encontradas país a fora, é preciso ter alguém com treinamento adequado e antenado com as evoluções do setor. Para isso, a empresa leva a equipe para conhecer as novidades em feiras, palestras e eventos ligados à panificação. Na hora de formar a equipe de trabalho, para Marcos Aurélio, o melhor é contar com a prata da casa. “O meu pessoal de padaria foi todo formado aqui na loja. Faço questão disso”, confirma.

Localização e degustação
A correta localização da padaria dentro da loja pode trazer alguma dúvida. Afinal, o que é melhor, colocar logo na entrada da loja para chamar mais a atenção, ou no fundo para gerar tráfego? “O correto mesmo é no fundo porque o cliente passa por toda a loja”, recomenda o consultor em padaria e confeitaria, Renato Lobato.  “O ideal é onde o cliente tenha comodidade, sinta os cheiros dos produtos, e possa escolher a seu gosto. De preferência longe de produtos de limpeza e higiene”, destaca o gerente de produção do Verdemar, em Belo Horizonte, Edward Soares. Lobato ressalta que os produtos precisam estar sempre à vista do cliente para que ele não perca tempo. “O cliente não pode procurar nada. Senão ele passa a comprar em um lugar em que acha tudo com facilidade”, enfatiza. Outra recomendação do consultor, é que em alguns momentos, enquanto assa os produtos, deixar escapar o cheio para o interior da loja para provocar o olfato do cliente. “Tem de explorar os cinco sentidos. Existem produtos que o cliente compra pelo olhar, mas padaria e confeitaria ele compra muito pelo cheiro também”, lembra.

Quanto à exposição dos produtos, se em vitrines fechadas ou abertas, Lobato acredita que a melhor maneira é mesmo aberta e, se possível com degustação. “É uma coisa meio complicada, mas eu sugiro que tenha a degustação, principalmente para produtos novos, pelo menos por uma semana”, disse. No entanto, deve-se observar horários e os produtos mais adequados. Uma degustação de salgados às 11 horas da manhã, pode provocar a visita de clientes que vão apenas “almoçar” na loja. Para o chef de padaria da loja Super Nosso Gourmet, no bairro Lourdes, em Belo Horizonte, Silvio Cezar Soares, até poucos anos atrás, a padaria do supermercado dava a idéia de um setor terceirizado, com produtos sem muita qualidade. Mas o supermercadista descobriu que essa seção podia ser mais bem trabalhada e a empresa foi atrás disso. “O Super Nosso mudou esse conceito da seção”, ressalta. E ele não está errado. A padaria do Super Nosso Gourmet, é uma das mais conceituadas em supermercados da capital mineira.

 

“É preciso gostar”
Nessa conquista da loja, o chef também tem grande conceito. Silvio Soares foi o primei ro colocado na Copa Luis Lesaffre, competição internacional sobre pães especiais na região Centro-Oeste do Brasil, Distrito Federal e Minas Gerais. Na classificação nacional, Soares ficou em quarto lugar. A vitória no concurso é um incentivo a mais para quem se intitula um apaixonado pelo que faz, neste caso, um dos mais populares alimentos do brasileiro. Hoje aos 31 anos de idade, Silvio começou na seção aos 14 anos, como faxineiro fazendo a limpeza de padaria. “Eu terminava a limpeza e corria para acompanhar tudo, como fazia o pão”. A trajetória do chef pode parecer pouco importante para o desempenho da seção, mas na verdade tem muito a ver. “A pessoa tem de gostar do que faz, afinal ela está produzindo um alimento que vai direto para a mesa do cliente”, justifica. “A primeira coisa na padaria é a pessoa gostar do que faz e sempre buscar fazer o melhor”, recomenda. Com 44 funcionários na seção de padaria, e o compromisso de ter pão quente das 7 horas da manhã até às 22h30, observando o horário do almoço do cliente, quando a demanda é menor, o chef do Super Nosso Gourmet lembra que é preciso observar bem os horários de maior demanda para que o produto esteja sempre novinho e ao gosto do cliente. Um verdadeiro desafio para um setor que abriga um mix com cerca de 500 produtos, dos quais 250 produzidos diariamente.

A produção começa no dia anterior, quando, às 23 horas, ao fechamento da loja, a equipe já deixa os produtos “dormindo” no preparo. Às 6 horas da manhã do dia seguinte é só finalizar e levar ao forno. Como em todas as padarias, o carro-chefe é o pãozinho de sal, mas os pães especiais são o produto-símbolo da loja. “Para encontrar um verdadeiro pão italiano é difícil e aqui o cliente acha”, garante o chef. Sobre o segredo de operação de uma boa  padaria, Silvio Soares lembra que é preciso ter disciplina, ter uma equipe bem treinada e ouvir sempre o cliente. “Nunca pensar que sabe tudo, tem de ouvir as opiniões. O cliente é o melhor padeiro que nos temos”, ressalta. Porque a padaria não é mais aquela seção complementar da loja. É na verdade, um grande diferencial. O tão popular pãozinho de sal não pode faltar. Nunca. Mas os pães especiais e um mix variado fazem toda a diferença na padaria. No caso do Super Nosso Gourmet, por exemplo, a seção representa 7% do faturamento global da loja, só com o mix próprio. “Incluindo todos os produtos, deve passar de 10%”, informa o chef Silvio Soares.

O gerente de operação do Verdemar, Edwar Soares, lembra que de uma forma geral, na administração da seção, o supermercadista precisa equilibrar a oferta e procurar qualidade, frescor, mix, produto certo na hora certa. Com relação ao mix ele é direto quanto à forma de trabalhar: “Escutando o cliente, seu público”. Se próprio ou da indústria, Edwar informa que pode variar muito, dependendo do público.”Se o público deseja frescor, sabor diferenciado, o ideal é produto próprio. Se ele quer simplesmente um complemento, se parte para produção industrial”.

Qualidade
O não pode faltar nunca numa padaria? Nesse assunto não há discordância. “Acima de tudo estar atento à qualidade e frescor”, recomenda Edwar Soares. O consultor Renato Lobato também não hesita. “Qualidade”, enfatiza. Ele recomenda também a diminuição do reaproveitamento. “É preciso reaproveitar material, sim, mas muita gente está exagerando, em detrimento da qualidade final”, disse.
 

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